Manuela Pimentel vs JAS – Na Cama Com o Inimigo – 13 de Maio > 4 Junho | Wozen Studio Gallery | Rua das Janelas Verdes, 128 [Lisboa]

May 08, 2017 João Alexandrino News 0 comments

18341718_1513066158716472_9150972380347150271_n

NA CAMA COM O INIMIGO

Os casais mais sólidos assentam numa complementaridade que corresponde a uma desigualdade à partida impossível de colmatar – Holmes e Watson, ou as suas caricaturas crísticas Poirot e Hastings, são o protótipo dessa relação – em que um deles serve para realçar o outro. Em caso de igualdade na nulidade, a complementaridade reduzir-se-á a uma pura redundância – Dupont e Dupond. Raros são, no fim de contas, os casais em que cada um dos parceiros tem suficiente força e personalidade para prosseguir a sua obra original sem deixar de amparar o outro – ainda mais raros aqueles que conseguem trabalhar a quatro mãos até o contributo de cada um deixar de ser distintamente perceptível: no cinema, por vezes irmãos, Taviani ou Coen, excepcionalmente um casal Straub-Huillet –, Mary e Percy Shelley ou Sartre e Beauvoir são casos suficientemente singulares para a história reter os seus nomes. É preciso que haja simultaneamente uma diferença e uma concordância iniciais que permitirão percorrer lado a lado caminhos paralelos. E também, já que se trata de criar, um longo sofrimento acumulado a sublimar.

A Manuela trouxe porventura ao JAS a dimensão manual e artesanal, a paciência, a atenção ao pormenor. O JAS trouxe porventura à Manuela a ambição, a visão, o desejo de inscrição na história. A Manuela introduziu porventura o JAS no círculo instituído da arte, com os seus marchands, as suas galerias, os seus circuitos, as suas internacionalizações, a sua feira das vaidades, a sua nota preta. O JAS comunicou porventura à Manuela o seu apetite, a sua febre de mexer em tudo, de criar depressa, a sua desenvoltura e a sua arrogância herdadas de um passado de boémia. Pois na verdade tudo parecia opô-los: a técnica, a factura, as temáticas, e até o tratamento da tal sede de amor que fez com que eles se encontrassem – a Manuela a coleccionar minuciosamente as mensagens de amor inscritas nas paredes da cidade, o JAS a pintar seres monstruosos que se agridem de todas as maneiras. Os traços comuns só aparecem em razão do número e da acumulação: carácter obsessivo que os leva a repetir os temas e as formas até à exaustão, dimensão simbólica que deixa entrever uma erótica da perda ou da insatisfação, marcas de dores caladas.

Durante muito tempo, as peças da Manuela obedeceram ao princípio da reconstituição: os azulejos de papelão reproduziam os de faiança, segundo o princípio do trompe-l’œil ou dos pedaços de açúcar de mármore de Duchamp. Durante muito tempo, as telas do JAS obedeceram ao princípio da citação: Picasso ou Julião Sarmento, ou até Bosch, eram explicitamente convocados como modelos. As referências da Manuela pertenciam ao mundo, ao vivo, ao presente; as de JAS à pintura, ao passado, à história. A Manuela realizava uma difícil promoção do semi-industrial, do funcional, do popular, ou até do lixo – nem que fosse arrancando verdadeiros bocados de cartazes para os colar em falsos pedaços de paredes – ao mundo da arte, operando uma deslocação tanto das coisas como dos valores. O JAS afirmava a sua pertença ao universo das imagens, admitindo tão-só a intrusão de um real depurado, metamorfoseado, codificado. Ambos – Manuela de um modo mais assumido do que JAS – trabalhavam segundo o princípio da repetição, por séries. O seu encontro rebentou com as respectivas bolhas, inflectiu o percurso de uma e do outro.

Ao correr do tempo, os casais mais antagónicos acabam por se parecer – Arpad Szenes e Helena Vieira da Silva, o meu vizinho e o seu cão –, não por as suas diferenças ontológicas terem desaparecido mas por se terem atenuado à medida que a influência recíproca foi introduzindo na obra de cada um elementos comuns aos dois. A Manuela sabia desde o princípio que a realidade é fragmentada, ou até mesmo fragmentária, e que uma cidade se constrói com diferentes paredes, e que uma parede é composta de azulejos distintos. O JAS pintava cenas, com corpos em acção. Aos poucos, os elementos corporais subliminares – as orelhas das paredes, ou até mesmo as suas vaginas – apareceram, tornaram-se visíveis, nas reconstruções minerais da Manuela. Em contrapartida, os corpos pintados pelo JAS desarticularam-se: um olho, uma mão bastam para evocar, encarnar, um corpo fantasmático, temido ou desejado. Faz parte da essência da relação amorosa magoar e tratar, talvez mesmo curar. A obra cruzada de Manuela e JAS está ainda no início. Esta exposição é pois um work in progress.

Saguenail

About the Author

Leave a Comment!

Your email address will not be published. Required fields are marked *